12 das 22 empresas de ônibus que operam em São Paulo são suspeitas de ligação com o PCC; veja quais são elas
17/09/2026
(Foto: Reprodução) Veículos da empresa Move Buss, que operam linhas na cidade de São Paulo e são alvo de operação do MP-SP.
Divulgação/Redes Sociais
Doze das 22 empresas de ônibus que operam na cidade de São Paulo são suspeitas de ligação com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), segundo o Ministério Público de São Paulo.
Apesar de não terem sido alvo de busca e apreensão, elas são citadas no despacho que autorizou a Operação Vectura Corrupta, realizada pela Polícia Civil e pelo MP-SP na manhã desta quinta-feira (17).
A operação tem como alvos o ex-vereador Milton Leite (União Brasil), também ex-presidente da Câmara Municipal, e o ex-presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira. (leia mais abaixo)
Essas empresas investigadas possuem mais da metade de todo o sistema de ônibus da capital paulista, que é o maior da América Latina e está entre os cinco maiores do mundo.
Criadas a partir de cooperativas de transportes, operam no chamado subsistema local, dos bairros mais afastados. Este subsistema responde por 6.029 ônibus da frota total de 13.690 veículos.
Veja abaixo as empresas que fazem parte das investigações da Operação Vectura Corrupta:
Viação Transcap Transportes
Alfa Rodobus Transportes
Transwolff Transportes
A2 Transportes
Imperial Transportes
Move Buss Transportes
Pêssego Transportes
Allianz Transportes
Transunião Transportes
Qualibus Transportes
Norte Bus Transportes
Spencer Transportes
A Transwolff — com outra empresa de ônibus, a UPBus — já tinha sido alvo de outra operação, a Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo MP-SP por suspeita de lavagem de dinheiro e favorecimento ao PCC.
As investigações apontam que o dinheiro usado para aumentar o capital da Transwolff poderia ter origem ilícita — ou seja, os recursos seriam provenientes de atividades do PCC.
O esquema envolveria uso de “laranjas” e “CNPJs fantasmas”, facilidades de empresas de fachada para ocultar as verdadeiras origens dos valores, algo típico de lavagem de dinheiro.
Em função dessas suspeitas, a Prefeitura de São Paulo rescindiu os contratos e assumiu o controle da Transwolff e da UPBus em dezembro de 2024. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que não há nenhum risco de ligação com o PCC. "Fiz a intervenção em 2024 na TrasWolf e caducidade, esse empresa é administrada pela prefeitura", afirmou.
Milton Leite é alvo de operação contra infiltração do PCC no sistema de transporte de SP
Milton Leite
Milton Leite não foi encontrado pelos policiais que foram à sua casa para cumprir o mandado. Segundo apurou a GloboNews, a polícia passou a considerá-lo foragido diante das circunstâncias encontradas no imóvel. Policiais permanecem no local para cumprir mandado de busca e apreensão.
De acordo com informações obtidas durante a diligência, Milton estava em casa até a tarde de quarta-feira (16). Uma funcionária relatou aos policiais que ele saiu à noite para um compromisso de campanha.
Também foram presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, e Danilo Marco Morgado Silva, ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e atual candidato a deputado estadual.
Em nota, Milton Leite afirmou que está viajando e negou estar foragido. “Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”, declarou o ex-vereador.
Ao todo, a operação busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.
Buscas na casa de Milton Leite
TV Globo
Investigação aponta influência de Milton Leite no setor de ônibus
Segundo apuração da GloboNews, a investigação aponta que decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política de Milton Leite. A conclusão foi sustentada, segundo investigadores, pela análise de interceptações envolvendo operadores e por elementos de outras investigações relacionadas ao papel decisório do ex-vereador.
No pedido que embasou a operação, Milton Leite é citado como responsável direto pela operação de algumas das empresas que, segundo a investigação, seriam controladas pela facção. O documento também menciona declarações de policiais militares, prestadas em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais ele seria o dono de fato da Transwolff.
Milton Leite deixou a vida pública no ano passado, depois de sete mandatos como vereador e de ter presidido a Câmara Municipal por quatro vezes. Atualmente, ele é presidente do União Brasil na cidade de São Paulo. Em julho, foi eleito presidente estadual da Federação União Progressista (UP), formada pelo União Brasil e pelo Progressistas (PP).
A Operação Vectura Corrupta é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.
Milton Leite (União Brasil), ex-presidente da Câmara de SP
Paulo Gomes/TV Globo
Ex-presidente da SPTrans preso
Entre os presos está Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans. Segundo os investigadores, apesar de Levi não aparecer como interlocutor direto de José Daniel Satilite, apontado como um dos personagens centrais do esquema, os dois teriam mantido encontros periódicos.
A investigação afirma que essas reuniões tinham como finalidade tratar de interesses da facção relacionados a empresas de transporte, especialmente após a deflagração da Operação Fim da Linha pelo Ministério Público de São Paulo, em 2024.
A defesa de Levi dos Santos Oliveira diz que ele não tem antecedentes, construiu ao longo de décadas, uma trajetória de relevantes serviços públicos prestados à cidade de São Paulo, atuando na SPTrans, onde se consolidou como referência técnica em sua área.
Outra frente da operação chegou a Danilo Marco Morgado Silva, que disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e era candidato a deputado estadual, mas teve o registro cassado. Ele também foi preso nesta quinta.
Danilo já havia sido alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Decurio. Segundo a Polícia Civil, a nova etapa da investigação identificou um "forte vínculo" dele com integrantes do PCC e indícios de que sua campanha à prefeitura teria sido financiada pela organização criminosa.
LEIA TAMBÉM:
Investigação da PM liga Milton Leite, ex-presidente da Câmara de SP, a empresa de ônibus suspeita de elo com PCC
Após 27 anos na Câmara de SP, Milton Leite não registra nova candidatura para vereador
'Sintonia dos Gravatas'
Outra frente da operação investiga a chamada "Sintonia dos Gravatas", núcleo formado por advogados que, segundo a polícia, atuaria diretamente em benefício da organização criminosa, ultrapassando os limites do exercício profissional da advocacia.
Entre os investigados estão Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu. Segundo a investigação, escritórios e contas bancárias teriam sido utilizados para reuniões, movimentações financeiras e outras atividades de interesse da facção.
O principal investigado apontado nesta fase é José Daniel Satilite, conhecido como Alemão. A Polícia Civil afirma que ele integra o PCC e funcionaria como intermediário entre empresários, advogados, políticos, pessoas próximas a políticos e integrantes da facção.
Histórico das investigações
O avanço de hoje é um desdobramento direto de duas operações anteriores. Em abril de 2026, a Polícia Civil e o Ministério Público realizaram a Operação Contaminatio, focada na estrutura de uma fintech gerida pela facção. O objetivo do grupo era usar a empresa de tecnologia financeira para se infiltrar em prefeituras e assumir o gerenciamento do recebimento de tributos, taxas e o contato direto com os munícipes. Naquela etapa, a investigação desarticulou a rede de doleiros e de operadores de criptoativos usada na lavagem do dinheiro e prendeu um ex-vereador de Santo André.
Toda a apuração teve início em agosto de 2024, com a Operação Decurio. Após a apreensão de 30 quilos de drogas em Itaquaquecetuba, os investigadores extraíram dados do celular da mulher de um dos líderes da facção. As informações do aparelho levaram à identificação e prisão de chefes da chamada "Sintonia Final" e à descoberta da fintech, que chegou a movimentar cerca de R$ 8 bilhões.
Foi também na primeira fase que surgiram as evidências iniciais do braço político da organização, com a identificação de campanhas de vereadores patrocinadas pela facção e o envolvimento de servidores comissionados em prefeituras do estado.