Acidente Voepass: quem são os indiciados pelo desastre aéreo com 62 mortos
06/08/2026
(Foto: Reprodução) Polícia Federal indicia 16 pessoas por queda de avião da Voepass em Vinhedo, SP
Profissionais com experiência e formação no setor da aviação e engenharia aeronáutica fazem parte dos 16 indiciados da Voepass indiciados pela Polícia Federal pelo desastre aéreo que matou 62 pessoas em agosto de 2024.
Entre os responsabilizados pelas investigações estão o dono da companhia de Ribeirão Preto (SP), José Luis Felicio e o diretor de manutenção Eric Cônsoli, apontado por ex-funcionários como uma figura de grande influência dentro da empresa antes da crise provocada pela queda do avião e do encerramento das atividades.
Ao término das investigações, a Polícia Federal concluiu que a tragédia com o voo 2283 em Vinhedo (SP) foi consequência de uma sucessão de fatores meteorológicos, falhas técnicas e uma conduta operacional insuficiente da equipe para lidar com os problemas, como o acúmulo de gelo severo na aeronave e a falha no sistema de degelo omitida dos registros de manutenção.
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Segundo a investigação, os indiciados são apontados como responsáveis ou como pessoas que contribuíram para o acidente, por ação ou negligência. Eles respondem pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo.
🔎 O atentado contra a segurança do transporte aéreo é previsto no artigo 261 do Código Penal. O crime ocorre quando alguém expõe a perigo uma aeronave ou dificulta, ou impede a navegação aérea. A pena prevista é de 2 a 5 anos de prisão. Se do fato resulta a queda ou destruição da aeronave, a pena passa para 4 a 12 anos. Se houver morte, a pena pode ser aplicada em dobro.
A seguir, veja quem são os indiciados pela Polícia Federal após a queda do voo 2283 e por que práticas eles foram responsabilizados.
Comandante Felício, presidente da Voepass, em primeiro pronunciamento após acidente
Reprodução/Voepass
José Luiz Felício Filho
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Empresário e piloto comercial há mais de 30 anos, é o proprietário e o principal gestor da companhia desde os anos 2000, quando o pai, fundador da empresa, antiga Passaredo Transportes Aéreos, deixou o comando.
Ao assumir o controle acionário e a gestão executiva da Passaredo, liderou reestruturações importantes, como o processo de recuperação judicial entre 2012 e 2017 e a aquisição da MAP Linhas Aéreas em 2019, quando a marca foi reformulada para Voepass. Após a tragédia em Vinhedo, voltou à liderança executiva direta da empresa, exonerando diretores.
Depois do encerramento das atividades da Voepass, passou a atuar como gerente comercial da RP Aviation, empresa fundada pelo ex-diretor de manutenção da companhia aérea no mesmo lugar onde funcionava o galpão da Voepass no Aeroporto de Ribeirão Preto.
Como diretor presidente e acionista majoritário, foi indiciado por ter ciência da cultura de omissão e permitir que a segurança fosse prejudicada em favor dos ganhos econômicos. Em termos práticos, essa omissão dolosa, segundo a PF, permitiu que aeronaves inseguras operassem em rotas com previsão de gelo severo.
Marcel Moura, diretor da de operações Voepass
Acervo/EP
Marcel Sarquis Moura
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Com experiência como piloto comercial e como instrutor, era o diretor de operações da companhia aérea do interior de São Paulo. Natural de Chapecó (SC), iniciou o curso de piloto em 1994 e ingressou na aviação comercial em 2000.
Possui 30 anos de experiência, tendo atuado como copiloto, comandante, instrutor de voo e examinador. Trabalhou por 14 anos em uma fabricante de aviões brasileira, com experiência em voos internacionais em diversos países.
Ingressou na Voepass em 2022 a convite do presidente da empresa e, ao assumir a diretoria de operações, tinha a responsabilidade de assegurar que todos os procedimentos estivessem em conformidade com as legislações e protocolos nacionais e internacionais.
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Foi indiciado por não garantir que as operações seguissem as normas de segurança e o manual geral de operações da empresa. Como gestor, era o responsável por setores que ignoraram restrições técnicas graves da aeronave acidentada, tendo inclusive respondido pessoalmente à Anac sobre falhas anteriores no mesmo avião, segundo a PF.
Raphael Limongi de Figueiredo
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Com mais de 15 anos de experiência na aviação civil nacional e internacional, foi chefe dos pilotos da Voepass até o fim de julho de 2024, quando foi substituído por Rafael Gimenez Rodrigues.
Antes, também atuou como gestor da divisão de Garantia de Qualidade Operacional de Voo. Com a exoneração de Marcel Moura em setembro de 2024, Limongi foi alçado ao posto de diretor de Operações da Voepass.
Segundo a Polícia Federal, foi indiciado por usar a autoridade quew tnha para forçar a operação de aeronaves inoperantes, minimizando panes técnicas como se fossem meros eventos meteorológicos.
Rafael Gimenez Rodrigues
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Nomeado chefe dos pilotos no fim de julho de 2024, era encarregado de acompanhar os padrões de padronização operacional e escalas dos profissionais da companhia.
Formado em 2021 em ciências aeronáuticas em Santa Catarina, escreveu na conclusão de curso uma monografia analisando fatores de risco associados à jornada de trabalho de tripulantes técnicos e a prevenção de acidentes aeronáuticos.
Foi indiciado por participar da pressão sistêmica contra o reporte de panes e pela promoção irregular de comandantes sem experiência mínima exigida. Em termos práticos, segundo a PFm, facilitou a política de omissão da empresa ao colocar pilotos inexperientes no comando para que aceitassem voar com falhas técnicas
Eric Cônsoli
Eric Cônsoli, indiciado pela PF no inquérito da queda do voo 2283 da Voepass
Reprodução/Linkedin
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Engenheiro aeronáutico formado em 2002, ingressou em 2010 na Passaredo (antigo nome da Voepass), onde ocupou os cargos de diretor de Frota, Logística e compras, além de diretor de manutenção da companhia, posição que deixou em setembro de 2024, após 15 anos à frente da área, quando foi um dos demitidos por Felício após o desastre aéreo.
Segundo ex-funcionários da companhia, Eric era uma figura de grande influência dentro da companhia.
Ele foi um dos executivos da companhia a prestar depoimento em uma comissão aberta na Câmara dos Deputados, em 2024, para investigar o acidente. Na oportunidade, ele afirmou que sempre trabalhou para garantir que todas as aeronaves voassem com 100% de condição de navegabilidade, seguindo rigorosamente os manuais dos fabricantes e as regras dos órgãos reguladores.
Na época, ele também garantiu que a empresa passava por inspeções periódicas da Anac e por auditorias externas voluntárias da IATA.
Segundo registros fiscais, Eric Cônsoli atualmente é dono da RP Aviation, criada em julho de 2025 e com funcionamento no mesmo hangar que antes era da Voepass. Segundo dados da Receita Federal, a empresa tem como atividade principal atividades auxiliares dos transportes aéreos, exceto operação dos aeroportos e campos de aterrissagem.
No entendo da PF, foi indiciado por ignorar notificações formais e pessoais da Anac sobre falhas críticas de manutenção que antecederam o acidente. Segundo as investigações, ele foi identificado como um dos diretores que ligavam para as equipes de pista para pressionar pela liberação de aviões inoperantes.
Polícia Federal divulga conclusão da investigação sobre queda do avião da Voepass em Vinhedo
Gabriella Ramos/g1
David da Costa Faria Neto
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Com mais de 50 anos de aviação, iniciou a carreira na Força Aérea Brasileira (FAB) aos 15 anos, onde permaneceu por 30 anos. Além disso, trabalhou na ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) por quatro anos.
Na Voepass, atuou como diretor de Segurança Operacional da Voepass de 2016 até setembro de 2024, quando foi demitido por Felício.
Ele também foi um dos representantes da empresa que, em 2024, prestou depoimento a uma comissão na Câmara dos Deputados, ocasião em que confirmou ter participado de todas as tratativas de apoio aos familiares das vítimas e reiterou boas práticas da empresa com relação à manutenção das aeronaves.
Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024
Nelson Almeida/AFP
Tiago Passucci Morani
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Com formação técnica em manutenção aeronáutica, era o inspetor chefe da companhia e credenciado pela Anac para liberar as aeronaves ATR 72 e a atestar suas condições de uso. O nome dele também consta como sócio-administrator de empresas nas áreas de comércio e importação e de serviços administrativos.
Com base no laudo pericial da Polícia Federal e nos registros operacionais anexados, segue a descrição das pessoas citadas e seus respectivos papéis ou condutas mencionadas no documento:
Edson Serra Martins
responde por falsidade ideológica.
Conhecido como comandante Serra, atuou como piloto do voo PTB2293, de Guarulhos para Ribeirão Preto, na madrugada do dia do acidente.
Durante seu voo, os gravadores registraram detecção de gelo e ciclagens de reset no sistema de degelo da estrutura. No entanto, o comandante registrou "nothing to report" (nada a declarar) no relatório técnico da aeronave.
Luciano Alves de Macedo
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Foi o comandante do voo PTB2204 no dia do acidente. Durante sua operação, a aeronave registrou alertas de "airframe faulta" (falha no degelo da estrutura), mas, assim como em outros voos daquele dia, a anomalia não foi formalmente reportada no livro de bordo para ação da manutenção.
Oderlino de Campos Figueiredo
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo.
Identificado como despachante operacional de voo (DOV), responsável pelo despacho dos voos PTB2204 e PTB2293 realizados pela aeronave PS-VPB no dia do acidente.
Jon Major Viana
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo.
Conhecido como John Viana, atuou como o despachante operacional de voo (DOV) responsável pelo voo PTB2282 - de Guarulhos para Cascavel (PR) no dia do sinistro.
Marcos Hiroyuki Sato
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
É mencionado nos registros como o despachante operacional de voo (DOV) responsável pelo voo PTB2206.
Alex de Souza Leandro
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Técnico de manutenção da Voepass, ele assinou o fechamento da lista de ações corretivas retardadas (ACR) e o "daily check" (inspeção diária) da aeronave no dia 9 de agosto de 2024.
O laudo observa que, nas fichas por ele assinadas, não constavam as falhas de degelo ocorridas nos voos anteriores daquele mesmo dia, pois não haviam sido lançadas pelos pilotos.
William Schmidt Agatz
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Agatz era gerente do centro de controle operacional (CCO) da Voepass e considerado uma peça central na cadeia de decisão das operações, como um elo entre a diretoria, o centro de controle de manutenção (MCC) e os despachantes (DOVs) para decidir quais aeronaves operariam ou seriam retidas para manutenção.
Segundo a PF, Agatz foi indiciado por gerenciar a prática sistemática de mascarar falhas técnicas, orientando que panes fossem reportadas apenas na base principal de Ribeirão Preto para evitar a retenção de aviões em bases secundárias.
Juliano Flores Pacheco
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Atuava como gerente do centro de controle de manutenção (Maintenance Control Center), sendo o superior direto dos mecânicos de pista. Mesmo com sua licença de mecânico cassada pela Anaca desde 2022 por irregularidades técnicas, ele continuava na chefia do setor.
Pacheco foi indiciado por exercer pressão direta e coação moral sobre mecânicos para liberarem aeronaves com defeitos graves, chegando a determinar "resets" de avisos de pane sem a troca de componentes e autorizando liberações baseadas em capítulos falsos da Lista de Equipamentos Mínimos (MEL) para forçar voos irregulares.
Carlos Alberto Costa
responde por atentado contra a segurança de transporte aéreo e por atentado contra a segurança de transporte aéreo qualificado pela destruição/queda da aeronave com resultado morte.
Costa era diretor de manutenção da companhia, integrando a alta direção técnica, e era o responsável pela supervisão direta do centro de controle de manutençãoi e do setor de confiabilidade (SASC).
Segundo a PF, ele foi indiciado por omissão na posição de garantidor da segurança da frota, permitindo que deficiências crônicas como as falhas no sistema de degelo fossem mascaradas por manipulações de procedimentos, renovações artificiais de prazos de manutenção e até o uso de peças de sucata para simular trocas de componentes.
O que dizem os indiciados
O g1 tenta localizar as defesas dos indiciados nesta quinta-feira (6). Veja o que eles disseram durante as investigações da Polícia Federal:
José Luiz Felício Filho: admitiu ter ciência da cultura de omissão de reportes de panes, revelando inclusive que diretores da Anac o alertaram pessoalmente sobre esse padrão de conduta dos pilotos ao longo dos anos.
Ele também reconheceu que a aeronave não deveria estar nas condições técnicas em que se encontrava, nem deveria ter sido despachada para aquela rota, embora tenha alegado que sua equipe de segurança operacional trabalhava apartada das decisões diárias.
Edson Serra Martins: admitiu ter conhecimento da falha no sistema de degelo (airframe de-icing) durante seu voo na madrugada do acidente, tendo inclusive relatado o problema verbalmente aos auxiliares de mecânico no pátio.
Luciano Alves de Macedo: negou em seu depoimento ter enfrentado qualquer alerta de falha no sistema de degelo ou de acúmulo de gelo em seu trecho. Ele alegou que, sob sua perspectiva, o avião estava em perfeitas condições de aeronavegabilidade ao finalizar o voo, justificando assim a ausência de qualquer registro de irregularidade no livro de bordo.
John Major Viana: admitiu ter despachado a aeronave para condições de gelo severo, mas se justificou alegando que os procedimentos da empresa na época não restringiam voos nessas áreas, desde que os sistemas estivessem funcionando. Também afirmou desconhecer falhas prévias no sistema de degelo por falta de registro no TLB, mas confessou que a diretoria sugeria rotineiramente "segurar" reportes de panes para que fossem feitos apenas na base principal em Ribeirão Preto.
Marcos Hiroyuki Sato: justificou o despacho da aeronave com o limpador de para-brisa inoperante alegando que o aeródromo alternativo não tinha previsão de chuva, mas admitiu que autorizou o voo para evitar transtornos logísticos e financeiros à Voepass, pois manter o avião parado em Cascavel causaria um cancelamento de pelo menos 12 horas por falta de tripulação no local.
Alex de Souza Leandro: negou ter recebido qualquer relato verbal de seus auxiliares sobre a pane no sistema de degelo reportada pelo comandante Serra na madrugada do acidente. Apesar de ter assinado a liberação da aeronave no "daily check", alegou que, como o piloto não havia feito anotações formais no livro, a aeronave estava apta para o serviço, versão que foi contestada pelos testemunhos de seus subordinados.
Raphael Limongi de Figueiredo: negou em depoimento ter conhecimento das falhas intermitentes no sistema de degelo da aeronave antes do acidente.
Marcel Sarquis Moura: alegou em sua defesa que sua função na diretoria era apenas prover facilidades logísticas, e que a responsabilidade técnica pelas operações e tripulações cabia ao piloto chefe.
Esta notícia está em atualização.
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