Cães alteram comportamento de onças-pardas em áreas protegidas, revela estudo

  • 05/08/2026
(Foto: Reprodução)
Cães alteram comportamento de onças-pardas em áreas protegidas, revela estudo Arquivo / Canva (edição nossa) Mesmo sendo um dos maiores predadores das Américas, a onça-parda (Puma concolor) muda seu comportamento diante da presença de cães domésticos. O estudo, registrado por meio de câmeras-trap, alerta para o fato de que animais domésticos podem representar uma ameaça indireta à conservação da espécie. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram A pesquisa foi realizada em duas unidades de conservação estaduais de Águas de Santa Bárbara, no interior de São Paulo. Segundo os pesquisadores, foram instaladas 67 armadilhas fotográficas distribuídas entre as duas áreas. Como foi o estudo? O monitoramento ocorreu durante quase um ano, entre 2014 e 2015. Nesse período, foram registrados 300 eventos envolvendo cães domésticos e 194 registros de onças-pardas. Os resultados indicam que a presença de cães de vida livre pode representar uma pressão adicional sobre a espécie, mesmo dentro de ambientes destinados à proteção da fauna, onde, em tese, esses animais não deveriam estar. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: VEJA VÍDEO: Ariranha é flagrada devorando enorme cachara no Pantanal; veja vídeo ALÉM DO DESMATAMENTO: Doenças também preocupam na conservação dos felinos brasileiros GRANDE FAMÍLIA: Pirarucu com cerca de 400 filhotes viraliza nas redes; especialistas alertam para invasão Segundo Rodolpho Gonçalves da Silva, biólogo do Laboratório de Ecologia de Mamíferos (LEMa) da Unesp e um dos autores do estudo, o resultado contraria a ideia de que predadores de topo são imunes a ameaças. Onça-parda é um dos maiores felinos das Américas Amanda Kae's Photoz / Animalia "Esse é um dos pontos que mais quebram a expectativa das pessoas, porque desmistifica a ideia de que estar no topo da cadeia torna o animal invulnerável. Mesmo sendo bem maior que um cão, a onça evita ativamente os locais por onde eles passaram. Ela não ganha nada arriscando um confronto desnecessário; evitar o encontro é uma forma de reduzir riscos e poupar energia", explica. Os cientistas não registraram encontros diretos entre cães e onças durante o estudo. Ainda assim, a análise das armadilhas fotográficas mostrou uma mudança consistente no padrão de uso das áreas pelas suçuaranas após a passagem dos cães. Por que as onças evitam os cães? O estudo não identifica uma única explicação para esse comportamento, mas levanta algumas hipóteses. Uma delas é que os cães funcionem como um indicativo da presença humana, já que costumam circular próximos a estradas, propriedades rurais e outras áreas ocupadas. Ao mesmo tempo, as onças utilizaram principalmente áreas com vegetação nativa e evitaram paisagens modificadas, como plantações de pinus, eucalipto e áreas agrícolas. "Quando a vegetação natural é reduzida ou fragmentada, a onça passa a usar uma paisagem com mais gente e fica mais exposta ao encontro com cães", afirma o pesquisador. Outra possibilidade apontada é o risco de encontrar uma matilha. "Embora uma onça possa até predar um cão sozinho, ela fica vulnerável diante de um grupo, e há relatos de onças perseguidas, feridas e até mortas por cães. São hipóteses compatíveis com os dados, mas, como não acompanhamos encontros diretos, não dá para afirmar qual delas pesa mais", afirma o biólogo. Além disso, os pesquisadores observaram que a frequência de retorno das onças aos locais visitados pelos cães permaneceu reduzida por aproximadamente cinco a seis dias, indicando que o efeito pode durar além das primeiras 74 horas registradas. Uma terceira hipótese considerada é que a passagem dos cães afaste temporariamente as presas da região, tornando o local menos vantajoso para a caça. Ainda assim, os resultados apontam que a resposta das onças está mais relacionada à percepção de risco e à perturbação do que apenas à disponibilidade de alimento. Onça-parda (Puma concolor) miguelangel0 / Animalia Cães parecem não evitar as onças Enquanto as onças demonstraram evitar áreas recentemente utilizadas pelos cães, o comportamento contrário não foi observado. De acordo com Rodolpho, os registros indicam que os cães continuavam frequentando esses locais logo após a passagem das onças. Em uma das análises, a ocorrência deles foi até maior nas primeiras 24 horas. "Isso sugere que eles podem estar investigando esses locais, mas não conseguimos dizer o porquê. A curiosidade pelo cheiro é uma hipótese plausível, já que o olfato é muito importante para os cães, mas nós não medimos odores nem o comportamento de farejar. As câmeras registram apenas quando o animal passou pelo mesmo ponto", explica. Por isso, os pesquisadores levantam a hipótese de que os cães não reconheçam o risco de um encontro entre as espécies. "Espécie exótica" Para Rodolpho, os cães representam um problema ainda maior porque não são apenas uma espécie introduzida nesses ambientes. "O cão doméstico não faz parte naturalmente da fauna dessas áreas, mas eu faço questão de ir um passo além: ele é uma espécie exótica subsidiada pelo ser humano", diz. Segundo o pesquisador, diferentemente de outras espécies exóticas, os cães continuam recebendo alimento, abrigo e cuidados das pessoas, mesmo quando circulam livremente nas áreas naturais. "Na prática, isso permite que existam em densidades muito maiores do que os carnívoros nativos. Além de alterar o comportamento das onças, cães soltos podem predar animais silvestres, competir por recursos, transmitir doenças e modificar o uso do habitat por diversas espécies." Como reduzir o problema? Os cientistas defendem que o desafio não é eliminar os cães, mas impedir que eles entrem e circulem livremente nas unidades de conservação. Entre as principais medidas apontadas estão a guarda responsável dos animais, programas de castração, fiscalização mais eficiente e ações de educação ambiental junto às comunidades do entorno. "Muitas vezes o tutor não imagina que um cão aparentemente inofensivo percorre grandes distâncias e interfere na fauna nativa. A solução depende da atuação conjunta entre gestores das áreas protegidas, moradores e poder público", conclui o biólogo. *Sob supervisão de Rodrigo Peronti. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Assista ao Terra da Gente deste sábado (1°), na íntegra Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/08/05/caes-alteram-comportamento-de-oncas-pardas-em-areas-protegidas-revela-estudo.ghtml


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