Entre plantões de 24h e treinos, bombeiro do interior de SP corre 110 km em prova de montanha

  • 23/08/2026
(Foto: Reprodução)
Bombeiro do interior de SP supera 110 km em ultramaratona na Serra da Mantiqueira Foram 110 quilômetros percorridos por trilhas da Serra da Mantiqueira, em Passa Quatro (MG), com 6.348 metros de ganho de elevação e trechos que chegaram a aproximadamente 2.800 metros de altitude. Para completar o percurso, o soldado da Polícia Militar e bombeiro Vitor Borges Paes, natural de Adamantina (SP), precisou enfrentar mais do que o próprio limite físico. No caminho, vieram o cansaço, as dores nos joelhos, as longas subidas e a vontade de parar. Em alguns momentos, segundo ele, parecia que a energia havia acabado. Ainda assim, havia um pensamento que permanecia: chegar ao próximo ponto de apoio e, depois, seguir novamente. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp A estratégia fez parte da conclusão da Ultra Misión 110 km, uma das provas de corrida de montanha disputadas na Serra da Mantiqueira, região que abrange mais de 30 municípios distribuídos entre os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em seu horário de folga, Paes, que atualmente integra o 14º Grupamento de Bombeiros e atua no posto de Osvaldo Cruz, levou para a competição também um símbolo da instituição. Ao cruzar a linha de chegada, segurava uma bandeira do Corpo de Bombeiros. “Cruzar a linha de chegada segurando a bandeira do Corpo de Bombeiros foi algo muito valioso para mim, me senti renovado por mais que tivesse acabado de correr 110 km, me senti representando a força de vontade que todo bombeiro tem diante de um grande desafio. Além do mais, cruzar a linha de chegada é mostrar que é possível, que outros também podem”, relatou Vitor. LEIA TAMBÉM Frente fria chega a SP com ventos acima de 75 km/h e derruba temperaturas no interior; veja a previsão TCE acha infiltrações, materiais enferrujados e livros sem uso em depósitos de escolas no interior de SP Bombeiro do interior de SP supera 110 km em ultramaratona na Serra da Mantiqueira Vitor Borges Paes/Arquivo Pessoal 'A montanha cobra caro' A prova exigiu uma preparação que começou ainda no fim do ano passado. Há cinco meses, Paes passou a contar com acompanhamento de um treinador e começou a seguir planilhas específicas para ultramaratona. Os treinos chegaram a 90 quilômetros por semana. A preparação, porém, não ficou restrita à corrida. Alimentação, sono, fortalecimento muscular e preparação psicológica também passaram a fazer parte da rotina. Conciliar tudo isso com a profissão de bombeiro foi outro desafio. Paes trabalha em jornadas de 24 horas e, nos dias de serviço, nem sempre consegue se ausentar do posto para realizar treinos longos. Por isso, nesses períodos, buscava alternativas dentro da própria rotina de trabalho. “É difícil conciliar a função de bombeiro com os treinos, pois trabalho 24 horas e geralmente meus treinos de corrida são longos e não consigo ficar esse tempo todo fora para correr 20, 30 km. Então nos dias de serviço eu faço um trabalho de fortalecimento na academia do posto ou uso a bicicleta da academia para pedalar”, explicou Vitor. Bombeiro do interior de SP supera 110 km em ultramaratona na Serra da Mantiqueira Vitor Boges Paes/Arquivo Pessoal Para ele, uma ultramaratona de montanha exige uma preparação que vai além do corpo. “Uma ultramaratona de 110 km na montanha exige conexão e entrega. É uma junção de corpo, mente e espírito e você precisa entrar nela sem ego e sem vaidade, porque a montanha cobra caro”, disse. E a montanha realmente cobrou. Um dos momentos mais difíceis aconteceu na última montanha do percurso, conhecida como Campo do Muro. Foram quatro quilômetros de subida que levaram aproximadamente duas horas para serem vencidos. Antes disso, havia ainda o desafio de alcançar a Pedra da Mina, ponto em que a altitude chegava a cerca de 2.800 metros. “O trecho mais desafiador foi subir o pico chamado Pedra da Mina, pois eu sabia que era a maior subida da prova. É o ponto onde bate 2.800 metros de altitude então isso pesou muito no psicológico, pois eu sabia o que já estava me esperando”, expressou o bombeiro. Mente Bombeiro do interior de SP supera 110 km em ultramaratona na Serra da Mantiqueira Vitor Boges Paes/Arquivo Pessoal Durante a prova, o corpo começou a cobrar o esforço. As dores nos joelhos apareceram principalmente nas descidas, que, segundo o bombeiro, foram tão desgastantes quanto as longas subidas. Em determinados momentos, ele precisou diminuir o ritmo, parar e descer devagar. A vontade de abandonar a prova até apareceu, mas não venceu. “Quando as dores nos joelhos apareceram foi um momento muito difícil. As subidas são longas e cansativas, mas as descidas destroem os joelhos. Então, com fortes dores, eu parava bastante e descia devagar, com a vontade constante de parar, mas eu sempre visualizava a chegada, visualizava todas as pessoas que eu estava representando ali e focava na linha de chegada. A negociação com a mente é constante em uma ultramaratona, durante o percurso muita coisa dá errado e você tem que saber lidar com isso”, aconselhou. O bombeiro militar encontrou uma forma de transformar os 110 quilômetros em pequenas metas. Em vez de pensar na distância total, concentrava-se no próximo ponto de apoio, onde sabia que encontraria comida e água. Se a energia acabasse, mantinha o passo, mesmo que fosse caminhando. A estratégia era semelhante à maneira como encara uma missão de resgate. “Trabalho em metas curtas, já que meu foco é sempre chegar no próximo ponto de apoio, onde sei que vai ter comida e água. Então sempre que a energia se esgota eu mantenho o passo firme, mesmo que caminhando, pois sei que logo vou poder repor as energias e assim vou até o ponto final, como se fosse uma missão de resgate”, falou. Bombeiro do interior de SP supera 110 km em ultramaratona na Serra da Mantiqueira Vitor Boges Paes/Arquivo Pessoal Espírito de equipe Embora seja uma competição individual, a experiência também mostrou ao bombeiro uma espécie de espírito de equipe entre os atletas. Durante o percurso, houve momentos em que corredores precisaram de ajuda e também ofereceram auxílio uns aos outros. Paes conta que chegou a dividir doces com outros participantes e recebeu água quando a própria garrafa acabou. Para ele, a experiência reforçou uma característica que também faz parte do trabalho como bombeiro: a necessidade de aprender com as dificuldades e seguir adiante, inclusive contando com o apoio de outras pessoas quando necessário. A relação com a corporação também esteve presente durante a prova. Amigos bombeiros o incentivaram durante a preparação, e o tenente responsável pelo posto conseguiu uma bandeira para que ele pudesse representar o Corpo de Bombeiros na chegada. O símbolo ganhou um significado especial nos últimos metros. Bombeiro do interior de SP supera 110 km em ultramaratona na Serra da Mantiqueira Vitor Boges Paes/Arquivo Pessoal Trajetória profissional A história de Paes com a carreira militar começou antes da chegada ao Corpo de Bombeiros. Ele deixou o Exército em 2021 e decidiu buscar uma profissão que, segundo ele, sempre havia sonhado em exercer e que pudesse fazer diferença na vida das pessoas. Na época, morava no Rio de Janeiro, onde não havia concursos regulares para a carreira que pretendia. No ano seguinte, mudou-se para São Paulo para prestar o concurso. Foi aprovado e, em 2023, iniciou a formação na Escola Superior de Bombeiros, que durou um ano. Em 2024, passou a atuar no 2º Grupamento de Bombeiros, na capital paulista, onde trabalhou no posto de Pirituba até junho deste ano. Depois, foi transferido para o 14º Grupamento de Bombeiros, onde está há cerca de dois meses, atualmente no posto de Osvaldo Cruz. No esporte, encontrou uma outra maneira de colocar à prova características que também considera importantes na profissão: “A resiliência para aprender com os erros durante o percurso e conseguir superá-los foi constante”. 'Poucas coisas na vida são impossíveis' Bombeiro do interior de SP supera 110 km em ultramaratona na Serra da Mantiqueira Vitor Boges Paes/Arquivo Pessoal Depois de completar a ultramaratona, Paes afirma que ficou com uma certeza que ultrapassa a linha de chegada. Para ele, superar dificuldades no esporte também ajuda a enfrentar os problemas da vida. “Sinto orgulho da mente resiliente que conquistei, pois vencer dificuldades no esporte também te ajuda a vencer dificuldades na vida”, disse o bombeiro. A experiência também mudou a relação do bombeiro com as provas de longa distância. Ele afirma ter se apaixonado pelas ultramaratonas em estilo de autossuficiência, nas quais o atleta precisa carregar parte da própria alimentação e hidratação. Correr durante a madrugada e enfrentar ambientes diferentes daqueles que fazem parte da rotina também se tornaram parte do desafio que busca. E, depois dos 110 quilômetros pela Serra da Mantiqueira, ele já pensa no próximo objetivo. A prova que pretende enfrentar no futuro é justamente a La Misión, competição que surgiu na Argentina e que possui uma distância de até 200 quilômetros, com cerca de 10 mil metros de altimetria acumulada, além das condições de frio da Patagônia argentina. Mas, antes disso, fica a lição que trouxe da montanha: “Apesar de tudo que é preciso para fazer uma prova desse nível, treino, alimentação, preparação física e mental, é necessário acreditar em si. Se eu não acreditasse que era possível eu teria parado no meio do caminho. Então, aprendi uma lição muito valiosa: poucas coisas na vida são impossíveis, mas para conquistá-las você tem que acreditar verdadeiramente que é possível realizar”, concluiu. Bombeiro do interior de SP supera 110 km em ultramaratona na Serra da Mantiqueira Vitor Boges Paes/Arquivo Pessoal *Colaborou sob supervisão de Stephanie Fonseca Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-e-regiao/noticia/2026/08/23/entre-plantoes-de-24h-e-treinos-bombeiro-do-interior-de-sp-corre-110-km-em-prova-de-montanha.ghtml


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