Milagreiros de cemitério: quem são os mortos que atraem devotos no interior de SP

  • 02/11/2026
(Foto: Reprodução)
Finados: o que são os milagreiros de cemitério que atraem devotos no interior de SP Ao caminhar pelo Cemitério da Saudade, em Campinas (SP), é comum encontrar túmulos repletos de placas com a frase "Por uma graça alcançada". Essas sepulturas pertencem aos chamados "milagreiros de cemitério", pessoas comuns que, após mortes muitas vezes trágicas, passaram a atrair devotos em busca de ajuda espiritual. O pesquisador cemiterial Thiago de Souza, idealizador do projeto "O que te assombra", afirma que há cerca de 25 milagreiros identificados em Campinas e outros 30 na capital paulista. Segundo o especialista, não existe uma regra para que alguém ganhe esse título. A devoção surge de forma espontânea e segue um processo próprio criado pelos visitantes. "Se não existir devoto, não existe milagreiro. A pessoa simplesmente acredita, ela vai lá, reza, pede ajuda, como se estivesse de fato pedindo ajuda a um santo submetido aos processos e ao crivo da Igreja. Se ele recebe ajuda, muito grato, vai lá e coloca uma plaquinha, acende uma vela, conta para as pessoas", explica Souza. O pesquisador ressalta que o fenômeno se assemelha à tradição dos primeiros mártires cristãos, mas difere da santidade oficial, já que a Igreja Católica não reconhece formalmente essas figuras. "É muito parecido com o processo devocional dos primeiros mártires, que depois vieram a ser chamados de santos. Tanto que eu nunca uso a expressão 'santo popular', porque santo decorre imediatamente de uma outorga da Igreja", diz. Mesmo sem o aval religioso, a devoção se mantém viva pela identificação da comunidade com as histórias dos mortos. Ritos e sincretismo Túmulo de Toninho, milagreiro do Cemitério da Saudade, em Campinas Isabelly Godoy/g1 Os túmulos dos milagreiros fogem do padrão visual dos cemitérios. Além de flores, recebem placas de agradecimento e objetos deixados por devotos que acreditam ter alcançado uma graça. Esses itens são chamados de ex-votos. Mais do que um agradecimento, o ex-voto é um testemunho público. Ao deixar o objeto, o devoto compartilha sua experiência, o que ajuda a espalhar a fama do milagreiro e a atrair novos visitantes. “Por exemplo, o cara está com um problema de saúde muito grave na cabeça. Se ele resolve o problema, ele vai lá e coloca um ex-voto em formato de cabeça. [...] O que é mais bonito desse fenômeno é que não tem regra”, relata Thiago. Religiões de matriz africana, como umbanda e quimbanda, costumam associar algumas dessas figuras a entidades espirituais. As milagreiras Maria Jandira e "A Desconhecida", por exemplo, são frequentemente interpretadas como pomba-giras. Já os túmulos infantis costumam ser relacionados aos erês. Devoção diária Túmulo de Toninho, milagreiro do Cemitério da Saudade, em Campinas Isabelly Godoy/g1 A devota Adriana Camilo, de 45 anos, visita os túmulos dos milagreiros desde a infância. Levada pelas tias, ela começou a orar no local antes mesmo de entender o significado da prática. "Eu, minha tia Francisca e minha tia Dinha costumávamos ir para o cemitério frequentar o túmulo do escravo Toninho e da prostituta Jandira, em quem eu também sempre tive muita fé. Na verdade, eu, quando criança, nem sabia o que significava isso; eu só sabia que eu gostava deles", lembra. Hoje, Adriana vai ao local esporadicamente. Como espírita, ela considera o cemitério um campo sagrado e realiza rituais de proteção nas visitas. "Na minha religião, a gente entende que ali estão espíritos. Então sempre tomamos um banho de defesa quando chegamos em casa", explica. Devota de Toninho, ela diz que a figura histórica representa a perseverança. Para Adriana, a quantidade de placas no túmulo prova a força dessa fé. "Lá não tem mais espaço para placas de graças alcançadas. Então, ele foi reconhecido como santo não é à toa", afirma. Adriana enxerga a prática como uma manifestação legítima da religiosidade popular, baseada na empatia por pessoas que sofreram em vida. "Quando isso é levado pelo lado positivo, para pedir algo bom e benéfico para a vida, eu não vejo mal nenhum. E tenho certeza de que, de alguma forma, o Toninho me ajudou", diz. Patrimônio imaterial e espiritualidade Flores deixadas no túmulo de Maria Jandira, milagreira do Cemitério da Saudade, em Campinas Isabelly Godoy/g1 Para o pesquisador Thiago de Souza, o fenômeno vai além dos pedidos de graças e revela traços importantes da vida em comunidade. “Eu gosto de um outro aspecto muito interessante, porque ele acaba evidenciando algo que a gente tem em tremenda escassez hoje em dia, que é a empatia comunitária. [...] Fazia com que as pessoas fossem até o cemitério rezar pela alma de quem partiu, rezar pela tristeza", conta. No passado, a população se reunia diante de mortes trágicas ou violentas, como a de Maria Jandira, dos "Três Anjinhos" e da "Desconhecida". Em vez de esquecer as vítimas, a comunidade transformava a dor em devoção. Para Souza, os milagreiros devem ser vistos como patrimônio. Cada devoto que volta ao túmulo, cada mãe que deixa uma chupeta e cada pessoa que reza por quem nem conheceu ajuda a manter viva a memória afetiva de Campinas. “A gente vai no cemitério, que é um lugar de tristeza, mas que também pode ser um lugar de conversão, que se apropria dessas mortes [...] e transforma esse acontecimento em esperança e fé. Eu acho isso muito bonito", finaliza. 👇 Conheça os principais milagreiros do Cemitério da Saudade: Milagreiros de Campinas no Cémiterio da Saudade Maria Jandira, a 'especialista nos afetos': nascida em 1911, trabalhou como prostituta e, segundo relatos, tirou a própria vida aos 23 anos após uma desilusão amorosa. Hoje, é procurada por pessoas que buscam ajuda para questões do coração. Desde os anos 1950, seu túmulo recebe flores e placas. Em algumas vertentes religiosas, é associada à figura da pomba-gira. Toninho Escravo, o 'clínico geral': a lenda conta que, em 1888, o trabalhador escravizado foi obrigado a ir para a lavoura na Sexta-feira Santa. O boi que ele conduzia, no entanto, teria se recusado a andar e "falado" que aquele era um dia santo. Toninho morreu em 1904 e, por atender a pedidos variados, virou o "clínico geral" do cemitério. Foi enterrado ao lado do antigo senhor, em uma área antes destinada apenas a brancos. Os Três Anjinhos, protetores das crianças: segundo a tradição, três crianças morreram em um incêndio. A identidade delas, no entanto, segue desconhecida. O túmulo é visitado por quem busca proteção e saúde para os filhos. Como agradecimento, pais e avós costumam deixar chupetas, mamadeiras e brinquedos na sepultura. 'A Desconhecida', a tragédia revertida em fé: uma jovem foi encontrada morta após um crime violento na região de Joaquim Egídio. Com o corpo queimado, ela nunca foi identificada. A comoção transformou a vítima em símbolo de fé, e hoje seu túmulo recebe pedidos ligados a relacionamentos. Assim como Maria Jandira, também é associada à pomba-gira por algumas religiões. João Paulo, o recordista de graças: integrante de uma congregação católica, morreu aos 30 anos. Sua devoção não envolve lendas trágicas: amigos tiveram sonhos com ele e, por orientação religiosa, levaram uma imagem de Nossa Senhora ao túmulo. É considerado o recordista do cemitério, com mais de 2,5 mil graças atribuídas a ele em apenas um ano. Dr. Vieira Bueno, o político: ex-prefeito de Campinas, Manuel de Assis Vieira Bueno é uma figura histórica. Segundo a tradição, seu túmulo também virou local de oração, mostrando que a devoção popular abraça desde pessoas anônimas até figuras que ocuparam espaços de poder. *Estagiária sob supervisão de Yasmin Castro e Gabriella Ramos. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/11/02/milagreiros-de-cemiterio-quem-sao-os-mortos-que-atraem-devotos-no-interior-de-sp.ghtml


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