Por que fisiculturistas usam insulina e o que torna a prática perigosa
25/05/2026
(Foto: Reprodução) Médicos alertam para riscos de uso de insulina
Reprodução/TV Globo
A insulina é o hormônio que tira diabéticos do limiar da morte e os faz recuperar peso e massa muscular. Há quase um século, foi assim que ela entrou para a história da medicina.
Hoje, o mesmo hormônio aparece em outro cenário, bem distante dos consultórios: o de fisiculturistas saudáveis que o injetam para crescer —sem diabetes, sem prescrição e sem que qualquer exame antidoping consiga flagrá-lo.
A discussão ganhou força depois que a perícia encontrou medicamentos, possivelmente anabolizantes, no apartamento onde o fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, foi achado morto. A causa da morte ainda não foi confirmada e depende de exames do Instituto Médico Legal (IML), sem previsão de divulgação.
Nas redes sociais, o próprio Ganley já havia relatado que usava insulina e que, semanas antes, passou mal em um episódio de hipoglicemia, depois de aplicar o hormônio em um dia de alimentação restrita. Os relatos, porém, não estabelecem a causa da morte, que segue sob investigação.
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Sem comentar o caso específico, o diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo, afirma que a prática é mais comum do que se imagina: em academias, é comum que usuários de esteroides apliquem insulina no mesmo protocolo.
A insulina também é um anabolizante
A lógica por trás do uso parte de uma característica real do hormônio.
"A insulina é um anabolizante", resume Macedo.
Dentro das células, ela bloqueia as vias catabólicas —as rotas de degradação de proteínas— e estimula as vias anabólicas, incluindo a síntese de proteína muscular. É por isso que, quando a diabetes tipo 1 (causada pela falta de insulina) está descompensada, o paciente perde peso; e, ao repor o hormônio, recupera massa.
O endocrinologista faz uma ressalva que considera essencial: como qualquer hormônio, a insulina só tem indicação quando há deficiência.
"Para quem tem deficiência e repõe doses corretas com critério, o remédio é seguro e até protetor. O problema aparece quando alguém sem deficiência alguma passa a usá-la."
Um estudo publicado em 2024 na revista científica Sports Medicine - Open, conduzido por pesquisadores da Itália e da Eslovênia com 92 fisiculturistas e 45 controles, ajuda a dimensionar a prática.
Cerca de 43% dos atletas avaliados admitiram, em questionário anônimo, usar hormônios com regularidade. Entre eles, quase todos recorriam a esteroides anabolizantes, e parcelas expressivas combinavam essas substâncias com hormônio do crescimento (30%) e/ou insulina (38%).
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Como a insulina age no corpo do fisiculturista
Há um segundo efeito que torna a insulina atraente em determinadas fases do treino e perigosa em outras. Além de favorecer o músculo, ela é lipogênica: deposita gordura.
"Quando falta, o indivíduo queima gordura e emagrece; quando há insulina em excesso, ele acumula", explica Macedo. O resultado é mais volume corporal.
Por isso, o uso costuma ser associado à chamada fase de "bulking", em que o atleta busca massa. O estudo europeu descreve a técnica empregada nesses círculos: a aplicação subcutânea de insulina de ação rápida acompanhada do consumo de açúcar antes ou depois do treino, para evitar quedas bruscas de glicose.
É um equilíbrio instável —e, segundo Macedo, sustentado por orientações sem base científica.
"Eu nunca vi médico, nem o pior possível, preconizando insulina."
O risco agudo: a hipoglicemia
O grande perigo imediato da insulina é o efeito que a torna útil na diabetes: ela baixa a glicose no sangue. Em quem não tem a doença, isso pode desencadear uma hipoglicemia —a queda da glicose a níveis perigosos.
Andrea Fioretti, coordenadora do Departamento de Endocrinologia do Esporte e Exercício da SBEM, explica o que torna a insulina injetada especialmente traiçoeira. A que o próprio pâncreas produz oscila conforme o açúcar disponível no sangue; a aplicada de fora age independentemente disso. Se a pessoa não ingere carboidrato suficiente —ou queima muito durante o treino—, falta esse ajuste automático, e o corpo escorrega para a hipoglicemia. O exercício intenso ainda acelera a ação do hormônio, sobretudo quando ele é injetado em um músculo muito exigido no esforço.
Macedo descreve a sequência. Em condições normais, a glicemia fica acima de 70 mg/dL, sem sintomas. Quando começa a cair para a faixa de 50 mg/dL, o corpo aciona uma defesa: libera hormônios que tentam elevar a glicose, entre eles a adrenalina. É ela que produz os primeiros sinais de alerta: coração acelerado, tremores e sudorese.
Se a glicose continua caindo e o organismo não recebe um carboidrato de absorção rápida, falta açúcar no cérebro. Esse estágio tem nome: neuroglicopenia.
A partir daí, segundo o médico, o quadro pode evoluir da agitação para a confusão mental, o torpor, as convulsões e o coma. Em casos graves, alerta, a pessoa pode "dormir e não acordar mais". Macedo lembra ainda que o risco se concentra justamente em momentos de restrição alimentar —quando o atleta treina muito e come pouco.
Cardiologista e especialista em medicina do esporte, com títulos pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pela Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE), Bruno Sthefan acrescenta que o tipo de insulina altera o modo como o perigo aparece. As de ação rápida provocam quedas abruptas; as de longa duração podem causar hipoglicemias prolongadas e silenciosas, que retardam a percepção do problema.
O alvo final, em qualquer caso, é o cérebro, que depende quase só de glicose para funcionar —privado dela, responde com desorientação, perda de coordenação, convulsões e, no limite, lesão neurológica irreversível.
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Um doping que os testes não pegam
Há um detalhe que diferencia a insulina das demais substâncias e a torna especialmente difícil de fiscalizar: ela é invisível aos exames antidoping. Enquanto há testes capazes de detectar esteroides anabolizantes e hormônio do crescimento, a insulina recombinante usada por humanos é praticamente idêntica à produzida pelo próprio corpo —e circula no sangue por apenas 5 a 10 minutos. Por isso, segundo o estudo, escapa dos métodos laboratoriais tradicionais.
Foi para tentar contornar esse ponto cego que os pesquisadores europeus buscaram marcadores indiretos. Eles observaram que fisiculturistas usuários de insulina e de hormônio do crescimento apresentavam queda do colesterol HDL —o chamado "bom colesterol"— e alterações em enzimas do fígado (as transaminases ALT e AST).
Em quem usava insulina, a razão entre essas duas enzimas se mostrou elevada de forma característica, o que poderia, no futuro, ajudar a flagrar o uso em monitoramentos de longo prazo.
O coração no centro do perigo
O uso isolado de insulina raramente é o quadro completo. Nesses círculos, ela costuma entrar em um coquetel com esteroides, estimulantes e diuréticos —e é o conjunto que mais preocupa cardiologistas e endocrinologistas.
Para Sthefan, o perigo cresce quando várias substâncias entram ao mesmo tempo: a combinação submete o corpo a desidratação, perda de eletrólitos e estresse metabólico que recaem de uma vez sobre coração, cérebro, fígado e rins —terreno em que arritmias e colapso se tornam mais prováveis.
Os esteroides anabolizantes, explica Macedo, reduzem o HDL, elevam o LDL (o "mau colesterol") e a pressão arterial, e deixam o sangue mais espesso e propenso à coagulação, aumentando o risco de trombose e embolia.
O coração, por ser músculo, também responde ao estímulo e pode sofrer hipertrofia. Some-se a isso o tipo de treino predominante —força e pouco exercício aeróbico, que não desenvolve a parte circulatória— e o cenário se agrava.
"Mesmo que não use anabolizante, quem faz só treino resistido já tem aumento de risco cardiovascular", afirma.
Um coração hipertrofiado e sobrecarregado torna-se terreno fértil para arritmias, que podem ser fatais quando combinadas a estimulantes adrenérgicos.
O endocrinologista relata atender com frequência crescente pacientes que desenvolveram arritmias após o uso de esteroides —alguns deles após colocar implantes hormonais. E observa que mortes súbitas em competições e treinos têm se tornado recorrentes.
Uma prática proibida e ‘subterrânea’
Embora circule como rotina em parte do meio, o uso desses hormônios para ganho muscular é ilegal. O uso de esteroides anabolizantes para fins estéticos ou de performance é proibido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por não configurar tratamento de saúde. Para a insulina, não há qualquer indicação em pessoas sem diabetes.
As doses praticadas, segundo Macedo, são "literalmente cavalares", e parte do material vem de produtos veterinários —mais fáceis de obter e mais potentes—, como a trembolona.
Para ele, o problema ultrapassa o indivíduo. Atletas jovens, com boa aparência e grande alcance nas redes, projetam um padrão de corpo que, segundo o médico, é "inatingível fisiologicamente" sem o uso de substâncias —e que se popularizou mais rápido do que o conhecimento sobre seus riscos.