Terapia com animais ajuda na ressocialização de adolescentes da Fundação Casa: 'Me deixou mais calmo', diz interno
20/08/2026
(Foto: Reprodução) Terapia com animais ajuda na ressocialização de adolescentes da Fundação Casa
Embora não possam falar, os animais encontram outras formas de demonstrar amor e gratidão em cada gesto: no olhar, na lambida, na bicada ou no simples abanar do rabo. Não importa a espécie, todos compartilham da mesma essência: uma pureza capaz de tocar o coração até mesmo de quem passa por um momento difícil.
É justamente a partir dessa conexão entre animais e humanos que a instituição Natureza Conecta, organização sem fins lucrativos que mantém um sítio em Itu (SP), desenvolveu um projeto voltado à ressocialização de crianças e adolescentes por meio da terapia assistida por animais.
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Adolescentes da Fundação Casa de Itapetininga (SP) participam de terapia com animais da Natureza Conecta
Natureza Conecta/Divulgação
A iniciativa também foi levada à Fundação Casa de Itapetininga (SP). Ao g1, Daniela Gurgel, fundadora da ONG, explicou que o trabalho parte da premissa de que adolescentes em medida socioeducativa precisam primeiro se sentir seguros para, então, conseguirem se abrir e estabelecer vínculos.
“A maioria chega com histórias marcadas por violência, abandono, negligência e rompimento de vínculos. Em alguns casos, aprende a responder ao mundo pela defesa, pela agressividade ou pela desconfiança. Antes de falar sobre o que viveu, é necessário se sentir seguro. Os animais são capazes de proporcionar isso porque não julgam, não cobram respostas prontas e oferecem uma interação direta e menos ameaçadora”, apontou.
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Na unidade de Itapetininga, dois adolescentes, que optaram pelos nomes fictícios “Gabriel” e “Gustavo”, participaram do projeto e contaram ao g1 como a convivência com os animais transformou suas vidas e os ajudou a compreender melhor os próprios sentimentos.
Vaca está entre os animais que participam das atividades de terapia assistida em Itu (SP).
Natureza Conecta/Divulgação
“Eles [animais] ‘estenderam a mão’ para mim e mudaram minha forma de pensar e de agir. Eu era uma pessoa muito explosiva, brigava bastante e não tinha muita paciência para as coisas. Teve dias em que eu estava triste, fui para o sítio e voltei feliz, pronto para enfrentar mais uma semana ou mais um período da medida”, conta Gustavo.
"O contato com os animais me deixou mais calmo. As atividades me ajudaram a desacelerar um pouco, pensar melhor antes de agir e ficar mais tranquilo. Acho que esse contato com os animais e com a natureza fez diferença para mim", disse Gabriel.
Os adolescentes também compartilharam quais são seus animais preferidos e, curiosamente, identificaram neles características que refletem suas próprias emoções e experiências.
“Eu gostei bastante das atividades com os cachorros, mas o animal com que mais me identifiquei foi o cavalo. Eu já tinha tido um cavalo antes, chamado Pé de Pano, então a atividade me fez compreender ainda mais o jeito e os sentimentos desse animal”, diz Gustavo.
“Minha favorita é uma cachorra da raça labradora. Gostei muito dela porque ela me lembra a mãe do meu cão. Acabei criando um carinho especial por ela e gostava bastante dos momentos em que podia ficar perto dela”, complementa Gabriel.
Contato com animais faz parte da terapia de adolescentes da Fundação Casa de Itapetininga (SP)
Natureza Conecta/Divulgação
Gustavo disse que percebeu que os cavalos são capazes de sentir as emoções das pessoas e manifestar sentimentos semelhantes aos dos seres humanos.
“Se você está nervoso, ele fica nervoso; se está calmo, ele também fica calmo. Isso me fez prestar mais atenção nas minhas próprias emoções e entender melhor o que o animal precisava”, relata.
Por isso, para Gabriel, a experiência no campo transformou sua percepção sobre a vida. Antes, o jovem apresentava um comportamento mais recluso, mas agora se sente confortável para compartilhar os sentimentos com familiares e amigos.
“Foi algo diferente do que eu estava acostumado e que me fez bem. Gostei de conhecer o lugar, participar das atividades e ficar um tempo nesse ambiente. Hoje, quando lembro das atividades, penso que foi uma experiência muito importante para mim”, reforça.
Para Gustavo, a experiência foi ainda além. Segundo o adolescente, assim que sair da medida socioeducativa, ele pretende fazer parte da equipe da fazenda e cuidar dos animais.
“Aprendi a ter mais paciência e a lidar melhor com os meus sentimentos e com as minhas emoções, tanto as negativas quanto as positivas. Criei um carinho muito grande pelas pessoas, pelos animais e por tudo que vivi naquele lugar. Foram cerca de seis meses que fizeram muita diferença na minha vida. Sou muito grato pela oportunidade e por todas as pessoas que acreditaram em mim”, disse.
Cabras estão entre os animais que participam das atividades de terapia assistida em Itu (SP).
Natureza Conecta/Divulgação
🐾🧠 Terapia na prática
Segundo Daniela, os encontros entre crianças, adolescentes e animais são realizados semanalmente, seguindo uma metodologia estruturada da terapia. As sessões são conduzidas por uma equipe multidisciplinar formada por psicólogos, pedagogos e médicos veterinários.
“Na prática, eles participam de atividades de aproximação, observação, interação e cuidado com os animais. A partir dessas experiências, são trabalhadas competências como construção de vínculos, autorregulação, responsabilidade, empatia, respeito aos limites, autoestima e convivência”, explica.
No caso de crianças e adolescentes acolhidos, os grupos são recebidos na fazenda da organização, em Itu. O mesmo ocorre com os adolescentes das unidades da Fundação Casa de Cerqueira César (SP) e Itapetininga, que são levados semanalmente de ônibus até o local.
Já para os menores de Sorocaba (SP), a proximidade permite que os animais sejam levados até as unidades da Fundação Casa, onde são realizadas as sessões.
"O deslocamento é planejado de acordo com as necessidades de cada espécie. Antes da saída, a equipe avalia as condições de saúde e o comportamento do animal, além das condições climáticas, do tempo de percurso e da estrutura disponível no local que irá recebê-lo", explica Daniela.
Projeto leva adolescentes da Fundação Casa de Itapetininga (SP) para atividades com animais em sítio em Itu (SP)
Natureza Conecta/Divulgação
Atualmente, vivem na fazenda cerca de 40 animais, entre cães, cavalos, pôneis, vacas e bois, cabras, porcos e aves. Em relação à terapia, segundo a fundadora, as características de cada espécie permitem trabalhar diferentes objetivos ao longo do processo. Confira abaixo:
Cães: favorecem a aproximação, a confiança e a socialização;
Bovinos: ajudam a desenvolver presença e cuidado;
Cavalos: permitem trabalhar limites, consciência corporal e autorregulação;
Cabras e porcos: podem estimular autonomia, adaptação e resolução de situações novas.
"Não se trata de uma atividade recreativa ou simplesmente de proporcionar contato com os animais. Cada interação faz parte de um processo planejado, acompanhado tecnicamente e orientado para objetivos relacionados à saúde mental e ao desenvolvimento socioemocional desses adolescentes", diz.
Para Daniela, a convivência com os animais cria oportunidades para que crianças e adolescentes aprendam, na prática, a cuidar, observar e respeitar o outro. Ao perceber as reações de cada espécie e entender seus limites, eles também passam a refletir sobre a própria forma de agir e se relacionar.
“Também existe uma identificação muito forte com as histórias dos nossos animais, muitos deles sobreviventes de abandono, negligência ou maus-tratos. Ao perceberem que aquele animal recebeu cuidado e teve a oportunidade de recomeçar, eles começam a reconhecer que suas próprias histórias também não precisam estar determinadas pelo que viveram”, pontua.
Daniela Gurgel, fundadora da Natureza Conecta, durante atividade com os animais no sítio da organização, em Itu (SP)
Natureza Conecta/Divulgação
A fundadora reforça, no entanto, que as interações com os animais não substituem o trabalho de psicólogos ou pedagogos.
“Eles atuam como mediadores, ajudando esses profissionais a acessar emoções e vínculos que, muitas vezes, levariam mais tempo para surgir”, conclui.
Resultados positivos
Ao g1, o presidente da Fundação Casa, Acacio Miranda, destacou que as terapias têm apresentado resultados positivos na sociabilidade e na saúde emocional dos participantes.
“Ao longo das atividades, observamos o fortalecimento da empatia, da confiança e da capacidade de estabelecer relações. É uma demonstração de como esse contato pode despertar novos interesses e abrir oportunidades para os jovens após a extinção da medida”, relata.
Daniela Gurgel, fundadora da Natureza Conecta, coordena o projeto de terapia assistida por animais, em Itu (SP)
Natureza Conecta/Divulgação
🐴 Cuidados com os animais
Daniela aponta que nem todos os animais participam das atividades da mesma forma ou com a mesma frequência. A presença de cada espécie é definida de acordo com o objetivo terapêutico e pedagógico, o perfil do grupo e, principalmente, as condições físicas e emocionais de cada animal.
“Para nós, eles não são instrumentos de trabalho. São indivíduos com histórias, necessidades e limites que precisam ser respeitados. Por isso, avaliamos constantemente se estão bem e se querem participar das atividades."
Ela explica ainda que o cuidado com os animais acontece diariamente, mesmo quando não há atendimento. A rotina inclui:
Alimentação adequada para cada espécie;
Limpeza dos espaços;
Higiene;
Acompanhamento do comportamento;
Momentos de descanso;
Estímulos para que possam expressar seus comportamentos naturais;
Vacinação e vermifugação em dia;
Acompanhamento veterinário regular.
“Também mantemos vacinação, vermifugação e acompanhamento veterinário em dia. Como médica-veterinária, acompanho diretamente a saúde, o comportamento e o bem-estar dos animais, junto aos profissionais responsáveis pelo manejo diário”, diz.
Cavalos são utilizados nas atividades de terapia assistida por animais em Itu (SP)
Natureza Conecta/Divulgação
Durante as atividades, a equipe observa sinais de conforto, cansaço, medo ou estresse. Caso algum animal demonstre desconforto, ele é retirado da atividade ou a dinâmica é adaptada.
“O bem-estar animal não é uma etapa separada da metodologia. É uma condição para que o trabalho exista. Não é possível falar em cuidado humano se o animal que participa desse processo não estiver igualmente protegido e respeitado”, diz.
"Também respeitamos a afinidade que pode surgir entre o adolescente e determinado animal. Às vezes, um jovem se identifica com a história ou com a forma de interação de um co-terapeuta específico, e esse vínculo passa a fazer parte do processo. Mas essa aproximação nunca é forçada, nem para o adolescente nem para o animal", conclui.
Daniela Gurgel, fundadora da Natureza Conecta, no sítio da organização, em Itu (SP)
Arquivo Pessoal
*Colaborou sob supervisão de Larissa Pandori
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