Universidade no litoral de SP reconhece centenas de diplomas de faculdade no Paraguai apontada como 'fantasma'

  • 13/08/2026
(Foto: Reprodução)
Unimes foi a universidade que mais reconheceu títulos de mestrado e doutorado da paraguaia FICS Arquivo A Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) foi a que mais reconheceu títulos de mestrado e doutorado da paraguaia Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS). O Fantástico mostrou que o dono da FICS, Ismael Fenner, está em prisão domiciliar na região metropolitana de Assunção desde o dia 28 de julho e é investigado por estelionato e produção de documento falso. A Unimes validou 480 títulos da faculdade apontada como fantasma por investigadores brasileiros e paraguaios. Isso representa 64% do total de títulos da FICS validados no Brasil na plataforma Carolina Bori, sistema do Ministério da Educação (MEC) criado para gerenciar os pedidos de revalidação de diplomas de graduação e de reconhecimento de títulos de pós-graduação obtidos no exterior. ✅ Clique aqui para seguir o novo canal do g1 Santos no WhatsApp. A FICS não tem registro no Conselho Nacional de Ensino Superior do Paraguai e, portanto, não existe legalmente. Segundo o Ministério Público do país vizinho, os documentos que a FICS apresentava para atestar a regularidade tinham carimbos, datas e selos falsos. A maioria dos títulos da FICS reconhecidos pela Unimes é de doutorado, sendo dois de mestrado. Os diplomas são principalmente das áreas de educação e saúde. Faculdade do Paraguai é acusada de emitir diplomas falsos de mestrado e doutorado A Unimes começou a reconhecer diplomas da faculdade paraguaia em 2024, quando foram deferidos 264 pedidos. Em 2025, foram 216. Atualmente, a plataforma mostra mais de 700 títulos da FICS que foram validados no Brasil por universidades públicas e privadas. A TV Globo analisou os dados da plataforma e encontrou cerca de 150 casos em que os títulos da FICS foram validados pela Unimes no mesmo dia em que o processo de reconhecimento foi registrado no sistema. O que diz a Unimes? Unimes Santos Arquivo/A Tribuna Jornal Em nota, o advogado que representa a Unimes, Rafael Martins, informou que “a atuação da Unimes na plataforma Carolina Bori limita-se ao reconhecimento de diplomas de pós-graduação stricto sensu, nos termos da Resolução CNE/CES nº 2/2024”. Sobre a FICS, disse que a Universidade segue os critérios do Ministério da Educação, analisando os documentos enviados por alunos por meio da plataforma, e que, “desde abril de 2025, a Unimes suspendeu a tramitação dos (pedidos dos) egressos da FICS, diante da cautela sugerida pelo MEC, em linha com as investigações da Polícia Federal.” A defesa informou ainda que a Unimes “não hesitará em (observados os constitucionais princípios da ampla defesa e do contraditório) deflagrar a sindicância e o procedimento próprio para anular qualquer revalidação dos (diplomas dos) docentes da FICS ou de outra instituição lastreada em qualquer irregularidade.” 218 diplomas cancelados na UFAL Uma vítima, que não quis se identificar, terminou o falso mestrado em 2022 e teve o diploma reconhecido pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). O título foi posteriormente cancelado, causando um prejuízo que passou dos R$ 40 mil. "Eu caí no golpe mesmo. Paralisei minha vida. Entrei num processo depressivo", contou. A UFAL cancelou 218 títulos da FICS e disse que foi induzida ao erro pela documentação falsa. Mas a plataforma Carolina Bori, usada para processos de reconhecimento de diplomas estrangeiros no Brasil, tem mais de 800 títulos da FICS validados por outras instituições. O delegado Bráulio Galloni, da Polícia Federal, disse que as instituições de ensino brasileiras que revalidaram os diplomas foram avisadas de que a FICS não era regular no Paraguai. Ele orientou as instituições brasileiras a iniciarem os processos para cassar os diplomas. O Ministério da Educação do Brasil informou que atua na gestão da plataforma Carolina Bori e que notifica as instituições, mas disse que só pode adotar medidas definitivas após a conclusão dos processos de apuração. Entenda o caso Faculdade Interamericana de Ciências Sociais (FICS) não está registrada no Conselho Nacional de Ensino Superior do Paraguai Reprodução/TV Globo Uma fraude com diplomas de mestrado e doutorado enganou brasileiros que pagaram por cursos oferecidos por uma instituição que não existe legalmente no Paraguai. Batizada de Faculdade Interamericana de Ciências Sociais (FICS), ela não está registrada no Conselho Nacional de Ensino Superior do país. Documentos usados para comprovar a legalidade dos cursos tinham carimbos e assinaturas falsos, segundo autoridades paraguaias. Nas redes sociais, vídeos anunciavam cursos de pós-graduação por preços que pareciam atrativos. "Dotorado em Ciências da Educação. Matrícula, R$ 790. E 24 mensalidades de R$ 790", diziam. O brasileiro Ismael Fenner é apontado como dono da FICS. Em reuniões gravadas, ele afirmava que a instituição tinha assessoria jurídica permanente no Paraguai e no Brasil. Mas, segundo o Ministério da Educação paraguaio, havia inconsistências graves nos documentos usados por Fenner para comprovar a legalidade dos cursos. "Os carimbos são falsos. As assinaturas são falsas. Os documentos são falsos", disse o promotor de Justiça Aldo Cantero Golmán. Com isso, os títulos de mestrado e doutorado emitidos pela instituição não têm validade. Mesmo sem registro, Fenner continuou divulgando cursos até julho. Ele chegou a usar o nome do ISICS, uma instituição real e habilitada no Paraguai, mas que, segundo os registros oficiais, não pertence a ele. Christian Acevedo Alvarenga, verdadeiro dono do ISICS, denunciou Fenner por uso indevido da marca. 'A gente caiu direitinho' Uma vítima, que não quis revelar a identidade, contou ao Fantástico que pagou R$ 23 mil por um mestrado em Neuropsicologia. As aulas eram on-line, uma vez por semana e em português. Ela afirma que não tinha motivos para desconfiar da instituição. "O que fizeram com a gente foi algo muito bem orquestrado que não tinha como a gente desconfiar. A gente caiu direitinho", relatou. Outra aluna, que perdeu R$ 40 mil, se mostrou constrangida com a situação. "A gente tem vergonha, na verdade, de dizer que fez parte dessa instituição. E a gente sabe que não vai voltar". Orientação aos alunos Para tentar validar os diplomas no Brasil, os alunos também eram orientados sobre como cumprir uma exigência para títulos estrangeiros: comprovar uma passagem pelo exterior. "A gente vai lá, pega a imigração, a gente pega a hospedagem, a gente tira uma carteira de estudante sua. O Paraguai é um país muito rico de cultura, de museu. A gente aproveita e faz as duas coisas", dizia um dos intermediadores da FICS no Ceará, que está sendo investigado pela polícia. As autoridades paraguaias descobriram a data de uma dessas viagens e chegaram de surpresa a um hotel em Assunção. O governo paraguaio disse que investiga a possível participação de funcionários públicos em fraudes no ensino superior e que iniciou um plano para modernizar a emissão de diplomas. Fenner cumpre prisão domiciliar Ismael Fenner teve a prisão decretada pelas autoridades paraguaias e cumpre prisão domiciliar em Assunção depois de pagar uma fiança de quase R$ 900 mil. Por causa dos diplomas da FICS, ele também foi indiciado pela Polícia Federal brasileira por apresentar documentos falsos. Em nota, Fenner afirmou ser vítima de perseguição de empresários do setor educacional que estariam usando o aparelho estatal paraguaio para destruir sua reputação. A defesa sustentou que ele é o verdadeiro dono do ISICS e que existe uma disputa judicial pela marca. Mas admitiu que os direitos de Fenner sobre o instituto estão atualmente suspensos. A advogada da FICS no Brasil também tenta reverter o cancelamento dos diplomas na UFAL, alegando falta de direito de defesa. Sobre a devolução do dinheiro aos alunos, ela disse que a questão depende dos processos judiciais e das investigações criminais.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2026/08/13/universidade-no-litoral-de-sp-reconhece-centenas-de-diplomas-de-faculdade-no-paraguai-apontada-como-fantasma.ghtml


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