Vestibular 2027: como usar IA para revisar conteúdos sem cair nas 'alucinações' da ferramenta

  • 14/10/2026
(Foto: Reprodução)
Vestibulou: como usar IA para estudar para as provas sem cair em ‘alucinações’ A inteligência artificial pode apresentar informações falsas ou imprecisas como se fossem verdadeiras, em um tipo de erro conhecido como “alucinação”. Na preparação para o vestibular, uma resposta errada pode fazer o estudante revisar um conteúdo de forma equivocada, aprender uma informação falsa ou até considerar incorreta uma resposta que, na verdade, poderia estar certa. Por isso, mais do que saber fazer perguntas para a IA, o estudante precisa aprender a desconfiar das respostas e verificar as informações recebidas. É o que explicam Luccas Zillig, diretor de um cursinho do Colégio Oficina do Estudante, e Leonardo Tomazeli Duarte, professor da Unicamp e pesquisador na área de inteligência artificial. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp Ao g1, os dois explicaram situações em que a IA pode ser uma aliada nos estudos, mas também destacaram quando é melhor desconfiar da resposta, conferir a informação ou simplesmente tentar resolver a questão sozinho antes de pedir ajuda a essas ferramentas. Nesta reportagem você vai entender: Por que a IA “alucina”? Quais os riscos? Importância de pensar por conta própria Pode usar IA para resolver questões? Quando a IA pode ser uma aliada? E as questões que exigem interpretação? Pode usar IA para criar exercícios? Como diminuir o risco de cair em uma “alucinação”? 🤖 Por que a IA “alucina”? As ferramentas de inteligência artificial generativa não funcionam como uma enciclopédia que consulta uma resposta pronta e verifica se ela está correta antes de entregá-la. De forma simplificada, segundo Leonardo, elas identificam padrões nos dados usados em seu desenvolvimento e tentam prever quais palavras ou informações fazem sentido na sequência. “No fundo, ela tenta adivinhar as próximas sequências de palavras”, explica o professor. É justamente por isso que uma resposta pode parecer correta sem necessariamente ser verdadeira. Segundo o professor, a ferramenta tende a funcionar melhor quando trata de assuntos conhecidos e que possuem grande quantidade de informações disponíveis. Já conteúdos pouco documentados ou com muitas possibilidades de interpretação podem gerar mais incertezas. “É um texto que parece verdade, mas não é. Porque ele é verossímil, mas não é verdadeiro. Como esses modelos grandes são treinados com muitos textos, o que é verossímil, de fato, a maior parte do tempo, é factual. Porque ele pegou tanto padrão, ele viu tanto aquilo que o padrão do preenchimento das próximas palavras começa a ficar factual”, explicou Leonardo. Na prática, isso significa que a IA não precisa “saber” que uma informação é verdadeira para produzir uma resposta convincente. Ela pode construir uma resposta que parece fazer sentido a partir dos padrões que encontrou. Por isso, mesmo com os avanços recentes, as alucinações ainda podem acontecer. “Ela alucina cada vez menos, não que ela não possa alucinar, mas a gente já tem por exemplo, em uma matéria como matemática, bastante conteúdo que ela possa acessar, e isso de certo modo faz com que ela consiga de fato ajudar o estudante”, explica o professor. ⚠️ Quais os riscos? Uma informação errada já seria um problema por si só. Mas, para quem está se preparando para uma prova, existe uma dificuldade a mais: o estudante pode não ter conhecimento suficiente para perceber que a resposta está errada. Se a ferramenta apresenta uma explicação bem escrita e com tom de certeza, o aluno pode simplesmente aceitá-la e continuar estudando a partir daquela informação. É por isso que Leonardo recomenda manter uma postura crítica mesmo quando a resposta parece fazer sentido. “Você pode se apoiar, mas tem que ter esse negócio: ‘deixa eu ver se eu entendi’, né? ‘Deixa eu ver se é isso mesmo’”, explica. A conferência é ainda mais importante quando a informação será usada em um trabalho, em uma revisão ou como base para estudar outro conteúdo. Imagem ilustrativo sobre estudar para o vestibular Magnific/IA 📝 Busque ao máximo pensar por conta própria É nesse ponto que o risco das alucinações se encontra com outro cuidado apontado pelos professores: não deixar que a IA faça pelo estudante justamente aquilo que ele precisa aprender. Imagine, por exemplo, que o aluno encontra uma questão que não sabe resolver. Em vez de tentar entender o enunciado, escolher um caminho e chegar a uma resposta, ele coloca a pergunta na IA e recebe uma solução pronta. Mesmo que a resposta esteja correta, o estudante pode ter pulado justamente o processo que deveria exercitar. “É muito importante que a gente tenha contato sim com coisas que a gente não sabe fazer e tente fazer essas coisas, não só ir lá e jogar na IA”, explicou Luccas. De acordo com o professor, isso também ajuda a lidar com uma eventual resposta errada. Se o estudante tentou resolver a questão antes, ele tem um raciocínio próprio para comparar com o que recebeu da ferramenta. Se apenas copiar a resposta, pode não ter como perceber o problema. Então não pode usar IA para resolver questões? Segundo os professores, pode, mas a orientação é mudar a ordem do processo. Em vez de começar pela ferramenta, o estudante pode: ler o enunciado com atenção; tentar resolver a questão sozinho; registrar o raciocínio ou a resposta; usar a IA para comparar a solução; perguntar onde pode ter errado; conferir a explicação; refazer a questão depois. Dessa maneira, a ferramenta passa a funcionar como apoio para a revisão, e não como substituta da tentativa. Luccas também chama atenção para outro problema: a preparação para uma prova precisa considerar que, no momento do vestibular, a IA não estará disponível para resolver as questões. “Se a gente só treina esse modelo com IA, sem IA não vai funcionar”, afirma. 💻 Quando a IA pode ser uma aliada e como usá-la? Os professores não recomendam abandonar a ferramenta. Pelo contrário: existem situações em que ela pode ajudar bastante, principalmente quando o estudante já está envolvido no processo de aprendizagem. Veja alguns exemplos a seguir: 👉 Analisar resultados de simulados Um dos usos apontados por Luccas é a análise dos resultados de simulados. Um estudante que tenha feito várias provas pode reunir as questões que errou e pedir para a IA organizar os resultados por disciplina ou conteúdo. Com os dados reunidos, a ferramenta pode ajudar a mostrar se os erros estão concentrados, por exemplo, em determinado assunto de matemática, em um período histórico ou em uma área da biologia. Segundo o professor, nesse caso, a IA não está decidindo o que o aluno precisa aprender. Ela está ajudando a organizar informações que o próprio estudante já produziu. 👉 Criar um cronograma de estudos Outra possibilidade é usar a ferramenta para montar uma sugestão de cronograma. O aluno pode informar os horários disponíveis, outras atividades que já possui e os conteúdos que precisa revisar. A partir disso, a IA pode organizar essas informações e propor uma divisão do tempo. A sugestão, porém, precisa ser avaliada pelo próprio estudante. De acordo com Luccas, a ferramenta não conhece necessariamente o ritmo de aprendizagem de cada pessoa nem sabe quais conteúdos são mais difíceis para ela. 👉 Explicar um conteúdo de outra maneira Também é possível usar a IA quando o estudante já tentou entender um assunto, mas não conseguiu acompanhar determinada explicação. Leonardo explica que, nesse caso, a ferramenta pode ajudar a reformular o conteúdo, apresentar exemplos ou explicar uma ideia por outro caminho. O cuidado é não confundir uma explicação fácil de entender com aprendizado. “Uma coisa é você aprender uma coisa, outra coisa é você ter a sensação que tá aprendendo alguma coisa, são coisas bem diferentes”, afirma Leonardo. Para ele, quando a IA entrega tudo pronto e muito simplificado, o estudante pode deixar de passar por etapas importantes, como pesquisar, ler, interpretar e relacionar informações. Estudantes realizam a segunda fase do vestibular da Unicamp neste domingo (1°) Pedro Amatuzzi/g1 📚 E as questões que exigem interpretação? Nem toda resposta pode ser avaliada apenas como certa ou errada. Em questões que envolvem interpretação de textos, imagens, literatura, história ou língua portuguesa, por exemplo, podem existir diferentes caminhos para chegar a uma resposta adequada. Por isso, Luccas recomenda cautela ao usar a IA para corrigir questões discursivas. O professor cita como exemplo uma pergunta que peça ao aluno para apontar dois problemas ambientais de uma cidade. Existem diversas possibilidades de resposta. Se a IA apresentar duas opções como modelo, isso não significa que qualquer resposta diferente esteja necessariamente errada. “Nem sempre só aquela resposta padrão da IA é aceita pelos vestibulares. Aquilo é uma resposta esperada, e não significa que outras respostas estão erradas, tem coisas que tem mais de uma explicação”, afirma. O mesmo cuidado vale para questões que dependem de repertório cultural ou de interpretação de uma situação histórica. A ferramenta pode seguir uma linha de raciocínio diferente da esperada pela banca ou até deixar de considerar um elemento importante. ✏️ Pode usar IA para criar exercícios? A inteligência artificial também pode ser usada para criar exercícios de revisão. Mas os professores fazem uma ressalva. Luccas considera mais seguro pedir que a ferramenta reúna questões de vestibulares anteriores do que solicitar que ela invente uma lista inteira. “Ele deve pedir listas de exercícios de vestibulares anteriores, porque aí vai ter um banco de dados que vai pegar questões que foram formuladas por especialistas e só compilar ali.” A lógica é que o estudante pode ter dificuldade para identificar um erro em uma questão criada pela própria IA. 🤔 Como diminuir o risco de cair em uma “alucinação”? Não existe uma maneira de garantir que a IA nunca vai errar. No entanto, algumas práticas podem ajudar o estudante a reduzir os riscos. Segundo Leonardo, uma delas é dar contexto suficiente para a ferramenta entender o que está sendo pedido. O estudante pode informar o conteúdo que está estudando, explicar o objetivo da atividade, indicar o nível de dificuldade e estabelecer critérios para a resposta. “Tem que contextualizar bem e tem que pedir: ‘olha, não quero que invente coisas’”, explica Leonardo. Segunda fase do vestibular da Unicamp ocorre neste domingo (1°). Estudantes realizam a prova até as 14h. Pedro Amatuzzi/g1 🗣️ A regra é não deixar de desconfiar Para os professores, o objetivo não é impedir o uso da inteligência artificial nos estudos. A ferramenta pode ajudar no processo de estudo, mas o limite aparece quando ela passa a substituir as etapas que o estudante precisa realizar sozinho ou quando uma resposta é aceita sem qualquer conferência. “Eu não diria que é errado. Eu diria que nós precisamos ser cautelosos com o uso da IA, e que a IA de forma alguma, não substitui um professor”, afirma Luccas. A ideia, segundo ele, é ensinar o estudante a usar a tecnologia de forma consciente, sem transformar a ferramenta em uma espécie de atalho para o aprendizado. Segundo os professores, a pergunta mais importante talvez não seja apenas “a IA está certa?”, mas também “eu consigo explicar por que essa resposta está certa?”. Se a resposta for não, ainda é hora de voltar ao conteúdo, tentar resolver sozinho e conferir a informação antes de seguir estudando. VÍDEOS: dicas, revisão e estratégias para mandar bem nas provas Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/10/14/vestibular-2027-como-usar-ia-para-revisar-conteudos-sem-cair-nas-alucinacoes-da-ferramenta.ghtml


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